Saturday, January 23, 2016

Idiocracia: Jessé Souza


A idiocracia é o governo pelos idiotas. Em uma idiocracia, a ciência e a lógica são substituídas pela conversa de boteco, as generalizações ginasianas e a picaretagem em geral. Infelizmente, exemplos da ascensão da idiocracia no Brasil são abundantes. 

Um exemplo é a entrevista do professor Jessé Souza, atual presidente do IPEA.

 Sua entrevista à Ilustríssima está coalhada de afirmações dignas de conversa de bêbados ginasianos (*), mas aquela que mais me envergonha como brasileiro é a afirmação que “a corrupção é endêmica ao capitalismo. Se corrupção for enganar o outro, então o capitalismo é certamente mais engenhoso que qualquer outro sistema social.”
 
Em contraponto, os cientistas João Manuel Pinho de Mello e Vinicius Carrasco expõem em artigo na Exame os erros da tese do professor Jessé de Souza. Vale a pena ler.
 
(*) Por exemplo, o tio Jessé do boteco acredita que “meia dúzia de petroleiras americanas  (...) mandavam no governo Bush filho, atacando o Iraque, (...), pela posse do petróleo”.

Friday, January 22, 2016

Inteligente, efetivo e claro

Eu gosto de escrever, gosto mais ainda de escrever sobre economia.

Mas ainda não consegui escrever um texto tão didático e interessante quanto este artigo do Marcos Mendes e Bernard Appy no Estadão (link). Usando personagens, Marcos e Bernard descrevem algumas das ineficiências microeconômicas mais gritantes em nosso imensamente ineficiente Estado (vocês sabiam que aposentado com cardiopatia é isento do IR? Parece piada, não?).

Vou continuar tentando, um dia eu chego lá.

Monday, January 18, 2016

Jogando contra?


Eu não aprecio a estratégia de debatedores que questionam as motivações dos seus rivais. Os economistas auto-definidos como de esquerda no Brasil (isto é, aqueles que acham que é ok o governo tirar dinheiro do contra-cheque do trabalhador para subsidiar a plutocracia do BNDES) têm este hábito.

Economistas não-esquerdistas (isto é, aqueles que condenam o ato do governo tirar dinheiro do contra-cheque do trabalhador para subsidiar a plutocracia do BNDES) são chamados de vários nomes interessantes. São os “esbirros do conservadorismo”, agentes motivados pelo desejo incontrolável de retornar o Brasil ao passado escravocrata, que tanto aterrorizam o caricato professor Astromar de Banânia e outros personagens menos risíveis.

Mas a generosidade tem limites e às vezes, contra meu melhor julgamento, acabo me questionando sobre a motivação de alguns participantes do debate.

Veja o que a Carta Capital colocou na boca do professor Pedro Rossi da Unicamp:

Com o pagamento das chamadas "pedaladas", o governo aumentou a liquidez dos bancos públicos e poderia destinar uma parte desses recursos à Petrobras, para alongamento de seus passivos e recomposição do seu plano de investimento.

Na semana que o preço do petróleo bateu na casa dos 30 dólares, sua ideia para a economia se recuperar é usar recursos escassos para vitaminar o plano de investimento de uma companhia que está desesperadamente tentando desinvestir porque... seu plano de investimento não é economicamente viável!

A metáfora adequada é o amigo que contata o viciado em heroína que acabou de se internar em uma clínica para desintoxicação e oferece-lhe uma linha de crédito e o número do celular do traficante.

Eu dou o benefício da dúvida ao professor. Quero acreditar que foi um comentário bem-intencionado, ainda que desinformado e infeliz. Talvez até uma citação errada. Ou apenas o professor tentando dar sua contribuição para o Brasil, sob a amarra de suas limitações.

Thursday, January 14, 2016

Vai um toucinho, professora?

A professora Laura Carvalho, da USP, diz que tem medo do FMI:

Mas, se o objetivo é nos deixar reféns do FMI e forçar novas privatizações em um futuro próximo, queimar as reservas é um bom começo.

Eu não acredito.

Pois quem tem realmente medo do FMI advoga políticas consistentes com este medo.

Não me lembro da professora expressando sua preocupação com o FMI quando a nova matriz econômica foi adotada: juros baixos na marra, subsídios nos preços de eletricidade e gasolina, salário mínimo subindo acima da produtividade, distribuição de benesses setoriais, endividamento excessivo do setor de petróleo etc.


Quem tem medo de infarto não come toucinho, regado a caipirinha, doce de leite na sobremesa e fumando Hollywood sem filtro.

Monday, January 11, 2016

Brasil vs Polônia: adivinha quem cresce mais rápido?

No longo prazo, ganha a corrida quem consegue evitar crises ainda que o crescimento não seja espetacular todo ano.

Vejam essa comparação entre Brasil e Polônia desde 1980.

No começo do período, os países tinham praticamente a mesma renda per capita (medida em dólares PPP, fonte WEO). Entretanto, as duas economias divergiram a partir de 1995.



Curiosamente, em 1994 foi publicado o livro The Market Meets its Match, da Alice Amsden (orientadora do Mansueto), Jacek Kochanowicz e Lance Taylor (orientador do Nelson Barbosa). Este livro trazia uma dura crítica das terapias de choque nos países ex-comunistas do Leste Europeu. O teste do tempo foi cruel com este livro.

Na segunda metade da década de 90, enquanto a Polônia abraçava a abertura de mercado, nós aumentávamos as tarifas alfandegárias para automóveis que até hoje sustentam a ineficiência de nossa indústria e geram o lucro para os acionistas da Volks, Fiat e outras.

Para manter o atraso, já no século 21, descobrimos que não precisávamos mais fazer reformas (“reformas, para quem?”) e paramos no tempo, ossificados.

Olhando de ano a ano, é difícil reconhecer as diferenças de crescimento. Mas com um horizonte de décadas, a pintura é bem clara: alguns têm Lech Walesa, outros têm Luís Inácio.

Pode ser que nós não tivéssemos conseguido manter o pique dos poloneses, afinal somos vizinhos da Argentina e não da Alemanha. Mas não consigo me convencer que uma renda per capita de 20 mil dólares per capita não estaria a nosso alcance se tivéssemos adotado políticas econômicas que privilegiassem a abertura de mercados (para ganhar produtividade) e a sustentabilidade fiscal (para evitar crises).