Sunday, March 6, 2016

Doutor Pedro Brás de Pindorama: Uma fábula de banalismo fantástico

A cidade de Pindorama tem muito orgulho do Dr. Pedro Brás, um cirurgião de qualidade internacional que domina técnicas cirúrgicas das mais sofisticadas. De fato, a cidade pagou caro para atrair um doutor de qualidades tão admiráveis, tão bom quanto os médicos da Capital.
Por muitos anos, a cidade concedeu ao Dr. Pedro Brás o monopólio das instalações do pequeno centro cirúrgico local, o Hospital de Campos.  E por muitos anos, o pequeno centro cirúrgico atendeu a maioria das demandas dos cardíacos aflitos, peladeiros fraturados, e ciclistas atropelados de Pindorama. Mas como a cidade tinha apenas um cirurgião e uma meia dúzia de leitos hospitalares, muitos dos pindoramenses tinham que recorrer aos caros hospitais da Capital.
Esta situação entretanto mudou. Graças aos esforços de um prefeito nos anos 90, Pindorama aprovou uma lei que permitia outros cirurgiães a praticar na cidade. Em grande parte devido aos esforços do Dr. Pedro Brás, livre da responsabilidade de ser o único cirurgião em Pindorama, a cidade ganhou um moderno centro cirúrgico com centenas de leitos. Agora Pindorama não só teria condições de oferecer a atenção médica que seus cidadãos mereciam, como também poderia gerar negócios e empregos atendendo os aflitos das cidades vizinhas, e quem sabe, até de longe. Um futuro brilhante podia ser vislumbrado no horizonte.
Mas a promessa de nova prosperidade mexeu com os piores sentimentos e acendeu a criatividade banal dos bem-intencionados em Pindorama. Sua prefeita, Dona Ernesta, impaciente para mostrar serviço, viu o novo hospital como uma oportunidade para industrializar a cidade, e introduziu as chamadas regras de conteúdo local.
O novo hospital, ao invés de comprar seus elevadores de alguma firma já estabelecida em outra cidade, teria que comprá-los de uma nova fábrica de elevadores aberta pelo dono da farmácia da Central em parceria com um empreiteiro especializado em casas populares. O material cirúrgico como bisturis, gazes e seringas esterilizadas também gerariam empregos locais, em uma nova fábrica financiada pela prefeitura e administrada por um renomado comerciante atacadista. O pujante negócio das camas hospitalares (aquelas com controle remoto, reclináveis) seria compartilhado entre vários distritos de Pindorama, em 10 diferentes fábricas, financiadas pelo poder público, cada uma com encomenda para 20 camas hospitalares.
A família do Dr. Pedro (filhos, genros, noras, cunhados e até sua sogra, um amor de pessoa), preocupada em manter sua posição de prestígio, reage à possível chegada de novos cirurgiães com diplomas de escolas famosas em Pindorama. Sem muito esforço, então consegue, usando de suas amizades de longa data com os vereadores da pacata cidade (a maioria dos quais já teve algum parente operado pelo Dr. Pedro), passar uma regulação estipulando que nenhuma cirurgia seria realizada sem a presença do Dr. Pedro.
As regras de conteúdo local aumentaram o custo do novo hospital, que teve que se endividar pesadamente para fazer frente às novas despesas. Mas não apenas o hospital sofreu com isso, também a prefeitura perdeu as calças quando algumas das fábricas de camas hospitalares faliu.
Já o requerimento de presença do Dr. Pedro não saiu barato. Alguns médicos da Capital que planejavam se mudar para Pindorama desistiram, assustados com a necessidade de ter sempre a companhia do Dr. Pedro na sala de cirurgia. Sem os novos médicos, algumas alas do hospital tiveram sua inauguração adiada.
Alguns pacientes de Pindorama continuaram a ir para Capital, enquanto outros pacientes passaram a pagar mais caro para realizar procedimentos de emergência. Choveu então dinheiro na conta bancária do Dr. Pedro. Mas assim como entrou, saiu. Seu genro pediu demissão de seu escritório banal e realizou o sonho de passar um ano estudando degustação de uísque nas Highlands escocesas. Sua cunhada Eduarda, sempre criativa, abriu uma galeria de arte para expor suas colagens. Seu caçula trancou o curso de Direito, matriculou-se em Filosofia na Capital e agora devora livros de um comediante esloveno (um tal de Zé Zequi, eu acho). Enquanto isso, o bem-respeitado doutor corria de uma cirurgia para outra e até dormia algumas noites no centro cirúrgico. Sua saúde se abateu e a pressão em seu semblante não escondia a saudade de assistir um jogo do Flamengo com os netos. Mas a crise se fez sentida mesmo quando os contadores entregaram seu relatório, e para surpresa da cidade inteira, o novo hospital estava praticamente quebrado.
Desde então, algumas de suas ambulâncias foram vendidas para o hospital da cidade vizinha (tamanha humilhação!). O Dr. Pedro Brás, cansado e também surpreso com os gastos em seu cartão de crédito, mandou cortar a mesada da parentada que se revolta (velho ranzinza!). Dona Ernesta, a prefeita, tem passado noites em claro tentando entender como vai ajustar as contas da prefeitura (a Câmara não quer aprovar novos impostos) enquanto seu conselheiro Astromar, cabelos impecavelmente penteados para trás com gomalina e ar professorial, discorre eloquentemente sobre uma nota de rodapé da Teoria Geral (afinal, hoje não é uma noite de lua cheia).



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